Artigo o Dr. Edmond Barras: As consequências negativas de se manter os pacientes hospitalizados acamados

Artigo o Dr. Edmond Barras: As consequências negativas de se manter os pacientes hospitalizados acamados

A dona Phylomena, 86 anos, viúva, morando sozinha em seu pequeno
apartamento, vivia feliz pois tinha uma autonomia perfeita para cuidar de si mesma e do seu lar, o que ela fez a vida toda. Entretanto, um belo dia, sem causa aparente, teve uma vertigem e caiu da própria altura. Preocupados, os vizinhos chamaram o SAMU que prontamente levou a dona Phylomena ao hospital mais próximo. Apesar de consciente e sem apresentar nenhuma lesão aparente consequente à queda, o médico plantonista decidiu internar a dona Phylomena para investigar a origem do mal súbito. Entre inúmeras prescrições, solicitações de exames, orientações de cuidados havia um aviso pungente no prontuário eletrônico e em pulseira no braço: Prevenção de Queda.

Essa pequena frase significa que a dona Phylomena deveria permanecer
acamada só se levantando com a presença da enfermagem. Durante três dias ela só saiu da cama para ir ao banheiro escoltada de perto por uma enfermeira hiper cuidadosa. Sem ser detectada a causa do pequeno desmaio a dona Phylomena teve alta, retornando ao seu lar. Qual não foi a sua surpresa que, ao retornar era incapaz de executar as mesmas tarefas de antes da internação, apesar de nada de novo surgir na sua saúde. Tomada por uma sensação de fraqueza importante, foram necessários três meses de reabilitação para recuperar a capacidade de andar e cuidar de si mesma. Nos dois anos seguintes a pobre anciã teve cinco episódios de desmaios que a obrigaram a ficar

hospitalizada, sendo que a rotina se repetiu sempre: três dias de hospital, três meses para recuperar.

Infelizmente o caso da dona Phylomena não é excessão. Uma pesquisa
feita por um geriatra da Universidade de São Francisco, Kenneth Covinski
demonstrou que os pacientes idosos apresentam taxas surpreendentes de
incapacidade após hospitalizações. Sua pesquisa descobriu que um terço dos pacientes com mais de 70 anos deixam o hospital mais incapacitados do que quando chegaram. Os hospitais se tornaram tão zelosos na prevenção de quedas que estão produzindo uma “epidemia” de imobilidade. Para se assegurar que os pacientes não caiam, aqueles que poderiam se beneficiar de atividade física são orientados a não se levantarem sozinhos, estando protegidos (ou sequestrados) por grades, alarmes e pela falta de pessoal para ajudá-los a se movimentar. Isso é especialmente prejudicial para pacientes idosos que em geral são mais fracos. Após apenas alguns dias de repouso no leito seus músculos podem se deteriorar o suficiente para levar a graves consequências a longo prazo. A preocupação com a prevenção de quedas se agravou em 2008 quando o Centro de Serviços Medicare e Medicaid declarou que as quedas em hospitais jamais deveriam acontecer. Apesar das sanções não serem tão severas, se um paciente sofre uma queda, o Centro paga a conta hospitalar, porém não cobre os tratamentos necessários decorrentes da queda. Essa política criou um “clima
de medo de cair” onde as enfermeiras se sentem responsáveis por tal
intercorrência. O resultado é que os pacientes são orientados a não se
movimentar e muitas vezes não recebem ajuda quando precisam. Para piorar a situação, à medida que os pacientes ficam mais fracos é muito mais provável que se machuquem ao cair. O Congresso Americano criou multas com a Lei de

Assistência Acessível e o Centro de Serviços passou a reduzir as verbas federais em 1% para aqueles hospitais com taxas de quedas importantes ou outras intercorrências durante a internação. Isso é substancial pois quase um terço dos hospitais americanos têm margens operacionais negativas de acordo com a American Hospital Association. Com essa medida foi sinalizado aos hospitais a necessidade de uma atenção maior em relação à prevenção de quedas. A limitação da mobilidade do paciente é uma consequência não intencional, em função disso. Embora os hospitais sejam obrigados a relatar quedas, em geral eles não monitoram a frequência com que os pacientes se levantam ou se movem.

Um estudo realizado em 2006 e 2007 com pacientes com mais de 65 anos
que não apresentavam demência ou delírio e que caminhavam normalmente nas duas semanas que antecederam a internação, constatou que passavam em média 83% do tempo na cama. Enquanto deitados, os pacientes idosos são monitorados por alarmes que soam sempre que tentam se levantar ou se movimentar. Esses alarmes são projetados para alertar a enfermagem e supervisionar o paciente para caminhar com segurança, mas a pesquisa tem mostrado que os alarmes não previnem quedas. Em geral as enfermeiras, sobrecarregadas nem sempre conseguem chegar perto do leito antes do paciente se estatelar no chão. Na maior parte dos casos os pacientes idosos precisam ficar acamados por sentirem dor, fadiga ou fraqueza. Também estão presos a acessos endovenosos, sondas e cateteres que dificultam a caminhada. Muitas vezes não há pessoal suficiente para ajudá-los ou ficam inibidos de sobrecarregar as enfermeiras ao pedirem ajuda. Além disso caminhar pelos corredores do hospital vestindo camisolas ridículas ou com os cabelos embaraçados pode ser constrangedor. Entretanto, caminhar um pouco é saudável. Pacientes idosos que andam 275 passos por dia no hospital têm taxas de readmissão em 30 dias muito menores. Alguns hospitais estão instalando alas especiais para pacientes idosos e há esforços em andamento para incentivá-los a se levantarem e se movimentarem a fim de manter a independência e prevenir as deficiências adquiridas no hospital. Uma outra iniciativa chamada Hospital Elder Life Program, visa reduzir o delírio adquirido no hospital e também incentiva a mobilidade provando como benefício adicional a diminuição da incidência de quedas. Um outro estudo mostrou que não havia quedas quando funcionários ou voluntários ajudavam os pacientes a se movimentar e a caminhar.

A pressão para se ter zero quedas deixou muitas enfermeiras assustadas.
A maioria modificou seu comportamento e não deixam mais os pacientes idosos se movimentarem sozinhos. Em 2015, Barbara King, professora de enfermagem da Universidade de Wisconsin montou um programa para enfermeiras com o objetivo de incentivar os pacientes a sair da cama, documentar a frequência e a distância percorrida, estimulando a deambulação. A diferença na recuperação foi significativa. Há certas barreiras, como a falta de tempo da equipe, equipamentos para auxiliar a caminhada e a maneira de registrar as deambulações nos prontuários eletrônicos. Porém o mais importante é a mudança de mentalidade que envolve tirar os pacientes dos leitos. É preciso mudar a cultura que nos faz pensar que um paciente que caminha é um paciente que cairá; é uma mudança que exige coragem!!!

Dr. Edmond Barras – Médico titular e chefe do Serviço de Clínica e Cirurgia da Coluna Vertebral do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. Médico assistente no Serviço do Prof. Raymond Roy-Camille no Hospital Pitié-Salpêtrière. Em 1978 fundou o Serviço de Clínica e Cirurgia da Coluna Vertebral do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, que dirige até hoje. Participações em cursos, congressos e publicações. Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em 1973. Residência Médica no Hospital das Clínicas da FMUSP e no Hospital Pitié-Salpêtrière em Paris. É membro da Associação Francesa de Cirurgia.

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