COLUNA E COVID-19 - Dr. Edmond Barras

COLUNA E COVID-19 -  Dr. Edmond Barras

À medida que a pandemia de Covid-19 foi se alastrando, observamos
que o que inicialmente era considerada apenas uma síndrome pulmonar na
realidade afetava outros órgãos como os rins e o cérebro, desencadeando
também uma doença rara, a Síndrome de Kawasaki. Até a presente data nada foi relatado que relacionasse a Covid-19 com a coluna vertebral, felizmente. Quero entretanto, aproveitando esta coluna que foi suspensa por mais de dois meses, para citar um artigo publicado pelo jornalista Thomas Baïetto na imprensa francesa, que entrevistou vários especialistas e historiadores sobre um assunto muito interessante e esperançoso: “Como acabam as epidemias”.

Sem dúvida todos nós, desde o início dessa epidemia deve ter se
perguntado: como e quando ela vai acabar? É muito difícil se fazer uma previsão porque se trata de uma epidemia nova onde as características do vírus são pouco conhecidas, adverte o Dr. Jean-Pierre Dedet, professor emérito da Faculdade de Medicina de Montpellier e autor do livro “As epidemias, desde a peste negra até a gripe H1 N1”. Se ainda é muito precoce para dar uma resposta definitiva, uma visão sobre as epidemias que marcaram a história da humanidade, nos permite vislumbrar o que nos espera. Peste negra, gripe espanhola, varíola, Sars, Mers, podem nos fornecer o que seria uma luz no fim do túnel. O final de uma epidemia depende estritamente do germe e do seu modo de transmissão. Basicamente há dois caminhos: ou a doença desaparece naturalmente ou o homem encontra uma solução.

A sazonalidade – É ela que faz desaparecer a gripe no começo da primavera porque o vírus prefere o frio e a umidade.

A mutação – À medida que se propaga, o agente patogênico, seja um
vírus ou uma bactéria, pode evoluir para uma forma menos letal, menos perigosa e mais fácil de controlar. Por exemplo a sífilis. “Nas primeiras avaliações, essa doença era descrita como intratável e mortal” escreve Patrice Debré, imunologista e autor do livro Vida e Morte das Epidemias. A sua gravidade foi se atenuando com os tempos.

A mutação pode ter também o efeito inverso. No caso da peste, foi a
passagem de um bacilo presente no estomago do rato para a corrente
sanguínea, o que infectou os piolhos do rato e em seguida o homem.

Modificações ambientais – Após ter aterrorizado a Europa entre os
séculos 14 e 18, a peste foi varrida desse continente por um rato de esgoto. Os ratos cinzas exterminaram seus primos, os ratos pretos, que eram hospedeiros da doença transmitida ao homem através das suas pulgas. O rato cinza era portador de um bacilo semelhante ao da peste que o havia imunizado contra a doença. É um caso muito particular no qual a doença foi interrompida no seu próprio reservatório.

Imunidade coletiva – Há também, para certas doenças, a resposta
biológica do nosso próprio organismo: é a famosa imunidade coletiva. Após um primeiro contato com uma doença, o nosso sistema imunológico produz
anticorpos que impedem a reinfecção. Admite-se que quando em uma
população, 60% dos indivíduos foram imunizados, haverá uma barreira à
propagação da doença. É o que aconteceu com a gripe espanhola em 1918 e
com a varíola. É interessante que o historiador grego Theocidide já havia
mencionado ao descrever a peste de Atenas, ocorrida no século quarto AC que “aqueles que haviam sobrevivido à peste poderiam cuidar dos doentes pois estariam protegidos”.

A epidemia pode desaparecer com a intervenção do homem.

Isolamento dos doentes para interromper a cadeia de transmissão – É
o que foi feito em 2003 com a epidemia de Sars, também provocada por um
coronavírus, e que se restringiu a algumas vilas no sul da China e em Toronto. Balanço: 8.000 casos e 774 óbitos.

Melhora das condições de higiene – Foi a maneira pela qual o cólera,
transmitido pela água, desapareceu em certas regiões do mundo. Foi erradicado da Europa e da América pela melhora do saneamento básico, principalmente em relação ao esgoto. Ainda mais se levarmos em conta que até o século 19 as cidades eram verdadeiras cloacas.

As vacinas – As vacinas permitem que se desenvolva uma imunidade
coletiva. A mais significante foi em relação à varíola, declarada em 1980 erradicada, após uma campanha mundial desenvolvida pela OMS.

Tratamentos e lutas contra o vetor – A luta contra o vetor (por exemplo
as campanhas anti-mosquito para lutar contra a malária), um tratamento
específico (que existe para a peste) ou um melhor conhecimento dos
mecanismos de transmissão, permite controlar a doença. Foi o que aconteceu com a febre hemorrágica na Argentina. Havia focos localizados dessa epidemia provocada por um pequeno rato mas não se sabia como se dava a transmissão. Percebeu-se que ela coincidia com o surgimento das colheitadeiras nos campos. Os ratos capturados pelas máquinas infernais, em seguida esmagados e moídos são pulverizados em forma de aerossol de sangue e urina e dispersos pela palha do monstro de aço sobre os agricultores que a seguiam. Uma vez identificado esse risco, a utilização de mascaras permitiu se delimitar a epidemia.

Nem todas as epidemias podem ter um final. Pode se fracassar para
encontrar uma vacina como no caso da Aids. O agente patogênico pode evoluir e se adaptar às técnicas usadas para combatê-lo. A doença pode continuar a circular em um reservatório animal ou no meio ambiente. É o caso da peste que ressurge de tempos em tempos em certas regiões de Madagascar. Não podemos nos livrar dos ratos, principalmente em meios de extrema pobreza onde o rato é um comensal do homem. Do mesmo modo que o cólera ressurge quando há problemas de acesso à água potável, como se viu no Haiti após o terremoto de 2010.

O Covid-19 pode nunca desaparecer? A história dos coronavírus e do
homem nos mostram os dois extremos do desfecho. A Sars foi totalmente
eliminada, enquanto que a Mers, que vem do camelo perdura há uma década. Ignoramos em qual categoria se classificará a Covid-19.

Uma epidemia é também um fenômeno social, econômico, político e
psicológico. Se há uma relação entre o aspecto médico e o social, nem sempre são coincidentes. O estudo da peste que assolou a cidade de Marselha e a região de Provence no início do século 18, mostra que do ponto de vista médico a cidade foi considerada livre da peste em 1721. Entretanto a volta das atividades demorou muitos meses em função da prudência das autoridades e do medo das pessoas. Os casamentos para recompor famílias dizimadas começaram após os primeiros sinais do declínio da epidemia, em novembro e dezembro de 1720. A atividade econômica recomeça mais lentamente; o comércio internacional só
recomeça em janeiro de 1723 e só se normaliza 6 meses depois. O medo não
atinge somente os que se encontram dentro da zona epidêmica, mas também os que se encontram fora dela. Nos últimos meses da peste a desconfiança era enorme sobre tudo que vinha de Marselha. Quanto ao fator psicológico ele é determinado por dois fatores: a incerteza sobre a doença e controle sobre a percepção do risco.

Quanto maior o sentimento de conhecer o risco, menos isso nos
inquieta. Há dois cenários já conhecidos nas sociedades ocidentais. Primeira possibilidade: acostumar-se ao risco, que nos faz parecer que se chegou a um final, porém a dinâmica da epidemia continua (como no caso da Aids). Segunda possibilidade: o “efeito espelho” no qual se mantém um nível elevado dos comportamentos de prevenção e de mudanças duradouras apesar da epidemia ter chegado ao fim do ponto de vista sanitário. Vários antropólogos acham que os comportamentos sociais podem ter mudado com as epidemias. As populações adotaram normas sociais que surgiram durante a epidemia e que persistem após, como não se dar as mãos. As duas hipóteses podem ser concomitantes em uma mesma sociedade. Só vamos saber a resposta dentro de alguns meses.

Esse artigo histórico que procura avaliar a evolução das epidemias
desde os primórdios da humanidade e cujos ensinamentos orientam
pesquisadores, epidemiologistas, sanitaristas, entre outros especialistas, de
como devemos nos conduzir diante de uma terrível e desconhecida epidemia, nos escancara como pode ser prejudicial e maléfica a influência política de certos governantes cegos pelo egocentrismo, tais como os do Brasil, Nicarágua e Bielorússia, diante de dezenas de milhares de vidas ceifadas, e que os coloca na posição de principais genocidas do século 21.

A História se encarregará de julgá-los!

Deixe um comentário

Envie um Comentário