Dr. Edmond Barras - Coluna e Covid-19

Dr. Edmond Barras - Coluna e Covid-19

Já completamos seis meses desde a invasão do nosso território pelo
novo coronavírus, com as consequências nefastas que são noticiadas
diariamente tanto pelos órgãos oficiais quanto pela imprensa. Entretanto até a presente data, apesar de se descobrir quase que diariamente novos órgãos do nosso corpo afetados por esse vírus, nada foi descrito sobre a relação desta besta microscópica com a coluna vertebral. Entretanto estão aparecendo efeitos nocivos indiretos dessa pandemia sobre a nossa coluna e sobre o nosso esqueleto em geral. Apesar de uma grande parte da população ter abdicado à quarentena e ao isolamento social, uma outra parte não baixou a guarda, seja por fazer parte do grupo de risco, idosos e portadores de comorbidades, seja por ter se adaptado ao home-office. Essa parte da população tem de maneira abrupta reduzido as suas atividades físicas, seja as feitas nas academias de ginástica, seja as efetuadas com auxílio de fisioterapeutas, e mesmo a redução do perímetro de marcha pelo confinamento em seus domicílios. E, de repente, percebemos um aumento significativo de dores nas costas, não só daqueles que já estavam sob tratamento e que foram interrompidos, mas por um batalhão de
novos sofredores, que nunca foram sintomáticos, mas que em função da
diminuição drástica da atividade física e à necessidade de improvisação de áreas de trabalho sem o mínimo de conceitos ergonômicos, os transformou em novos sofredores. O contingente de sofredores crônicos acabaram se afastando do atendimento presencial com os seus médicos e fisioterapeutas. Esse fato foi também comprovado em pacientes cardiopatas, cuja mortalidade aumentou em função da suspensão das consultas de rotina.

Várias medidas foram incrementadas como consequência à pandemia. Uma delas foi a efetivação das consultas por telemedicina. Esse método tem se revelado útil, mais para o seguimento de pacientes que anteriormente já tinham se submetido à consultas presenciais. A avaliação de uma patologia de coluna vertebral é embasada em um interrogatório orientado quanto às características das queixas do paciente, um exame físico e a análise de exames complementares, principalmente de imagem. O interrogatório e a análise dos exames podem ser feitos por telemedicina, o exame físico e neurológico só se conseguem através de contato físico. O saudoso Prof. Roy-Camille costumava dizer “a coluna conta o seu diagnóstico; com um bom interrogatório chego a 80% do diagnóstico, com o exame físico eu chego a 95% e com os exames complementares chego a 100%”.


Palavras sábias, ainda mais em uma época na qual não existia a tomografia
computadorizada e a ressonância magnética. Infelizmente, nos dias de hoje
essas porcentagens se inverteram por várias razões que já comentamos em
publicações anteriores. Mas talvez esse fato venha a facilitar as teleconsultas em momentos excepcionais, como pelo qual estamos passando.


Uma iniciativa louvável está partindo dos fisioterapeutas. Eles estã
descobrindo maneiras de trabalhar dentro das diretrizes atuais. A saúde do
paciente é prioritária, tanto quanto a segurança em relação ao Covid-19 mas também em termos de fisioterapia. Compreender o estado emocional e psicológico do paciente é fundamental. A pandemia fez com que as pessoas se isolassem completamente o que é, sem dúvida, prejudicial para a saúde física e mental. Esse isolamento é especialmente problemático para aqueles pacientes que já eram portadores de dores por alguma lesão vertebral. Para eles é fundamental continuar mantendo uma relação com o médico ou com o fisioterapeuta. Em teleconsultas periódicas os pacientes obtêm respostas a
perguntas, a dúvidas sobre o tratamento e eventuais modificações do
tratamento. A fisioterapia em casa pode ser uma solução muito prática nos casos em que o paciente não necessita de atendimento presencial. Os exercícios são demonstrados através de vídeo em tempo real e personalizado, e é uma dupla via, pois o fisioterapeuta também pode avaliar os exercícios do paciente para orientações e correção de eventuais falhas. Isso pode ser revisado periodicamente e orientá-los para exercícios mais complexos. Uma fisioterapeuta relatou que há também vantagens de se ver a casa do paciente e o espaço no qual trabalha. Ao observar a sua mesa de trabalho, pôde corrigir posição da tela e do teclado do computador e mesmo sobre uma nova cadeira. Mas, e quanto à adesão dos pacientes? Consultas regulares com o seu médico e fisioterapeuta permite que seja avaliada a evolução e eficácia do tratamento.


Nesse novo tipo de atendimento alguns pacientes tentam “trapacear” um pouco o que exige maior vigilância por parte dos profissionais da saúde. Como antes da pandemia a comunicação é fundamental. Pacientes que entendem porque tratamento fisioterápico é necessário, terão maior adesão. Quando se explica aos pacientes a importância dos músculos e como os exercícios vão melhorar a sua função, tendem a valorizar melhor a importância do trabalho fisioterápico.

Fiquei muito confiante ao descobrir que em São Paulo já existem
fisioterapeutas trabalhando com essa nova filosofia!

Dr. Edmond Barras – Médico titular e chefe do Serviço de Clínica e Cirurgia da Coluna Vertebral do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. Médico assistente no Serviço do Prof. Raymond Roy-Camille no Hospital Pitié-Salpêtrière. Em 1978 fundou o Serviço de Clínica e Cirurgia da Coluna Vertebral do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, que dirige até hoje. Participações em cursos, congressos e publicações. Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em 1973. Residência Médica no Hospital das Clínicas da FMUSP e no Hospital Pitié-Salpêtrière em Paris.  É membro da Associação Francesa de Cirurgia.

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