Dr. Edmond Barras - Cuidados melhores, ganhos maiores

Dr. Edmond Barras - Cuidados melhores, ganhos maiores

O modelo tradicional de remuneração pelos serviços médicos “fee-for-
service” é um dos principais fatores que alavancaram a inflação da assistência médica em todo o mundo. Como os médicos recebem pelo volume de procedimentos realizados e não pelos resultados obtidos é difícil recompensar os profissionais que realmente obtêm os melhores desfechos no tratamento dos seus pacientes. Também é um grande empecilho para a redução de custos pois a eliminação de procedimentos desnecessários leva a uma menor renda do médico. Os modelos de pagamento por “pacotes” foram propostos como um novo modelo de pagamento no qual os prestadores de serviços de saúde são recompensados pelo resultado fornecido aos pacientes, mais eficientes e com custos menores. Nos EUA o Centro de Serviços Medicare e Medicaid concluiu recentemente o seu primeiro programa de pagamento por pacote, executado entre 2015 e 2018. O foco desse programa foi centrado nos procedimentos ortopédicos, de coluna e cardiológicos. Como o governo federal americano estabeleceu uma meta de direcionar 50% dos pagamentos do Medicare em programas baseados em valor ao invés de taxa por serviço, e as seguradoras
privadas com meta mais agressiva, 75%, é importante que os cirurgiões de
coluna compreendam a realidade desses programas. Com o novo modelo surgem oportunidades financeiras mas também riscos.

Esse sistema de remuneração tem algumas características: em primeiro
lugar, um procedimento eletivo abrange todos os serviços desde a cirurgia e após a alta pelos próximos 90 dias. Em segundo lugar, eventuais intercorrências clínicas relacionadas ao diagnostico principal também podem ser contabilizadas. Os cuidados ambulatoriais são autorizados de maneira automática. Os preços alvo são fornecidos antes do primeiro período de avaliação do desempenho e são ajustados durante um período de avaliação e conciliação para o cálculo do preço alvo final, refletindo o custo real do tratamento ao paciente. Os serviços e custos relacionados a uma cirurgia eletiva abrangem atendimento em caráter ambulatorial ou hospitalar, bem como os cuidados pós alta como reabilitação, assistência domiciliar ou serviços de home-care.


Existem compensações financeiras para os cirurgiões de coluna que mantem um gerenciamento eficiente e em tempo real para os seus pacientes após a alta hospitalar. Esse gerenciamento de risco não é fácil na prática, pois os cirurgiões podem perder o controle sobre os pacientes e as fontes pagadoras sobre os médicos, sobre o tempo de permanência ou reabilitação ou eventuais complicações médicas após a alta. A utilização de canais de comunicação em tempo real são essenciais para otimizar esse gerenciamento do atendimento pelo período de 90 dias do pacote.

Não é de se surpreender que a maioria das fontes pagadoras estejam
avançando com os programas de pagamento por pacote. Eles podem variar
conforme a operadora e a população. Os pacotes de tratamentos das doenças da coluna vertebral podem ser atraentes para as operadoras dado os custos e resultados amplamente variáveis das cirurgias de coluna. Para os cirurgiões o importante é se conscientizar que 80% do sucesso ou fracasso desse sistema reside na negociação dos valores de cada pacote. Em um mundo onde a quantidade de dados e a maneira de usá-los é fundamental, negociar um conjunto justo de obrigações e honorários é o principal ponto de partida. É preciso também entender que o valor do pacote pode variar de acordo com o pagador e mesmo de um cirurgião para outro, mesmo na mesma região. O objetivo principal do pagamento por pacote é recompensar os cirurgiões que apresentarem melhores resultados clínicos com custos menores. É preciso reduzir custos sem prejudicar a qualidade do atendimento.

Para orientar a eficiência de valor (melhores resultados a um custo mais
baixo) num mercado que tradicionalmente paga por procedimento efetuado, o sistema de pagamento por pacote introduz o fator risco financeiro para o “dono” do negócio, no caso, o prestador de serviços. Os médicos, fazendo parte dos “donos” são sem dúvida os elementos mais adequados, em melhor posição e a parte mais interessada em coordenar o sistema, principalmente evitando desperdícios no tratamento ao seu paciente. Com o risco, surge a oportunidade de recompensa para os cirurgiões de coluna que forneçam um atendimento eficiente tanto na cirurgia quanto na coordenação e gerenciamento do atendimento pós-cirúrgico para os seus pacientes.

É um grande desafio!

Dr. Edmond Barras – Médico titular e chefe do Serviço de Clínica e Cirurgia da Coluna Vertebral do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. Médico assistente no Serviço do Prof. Raymond Roy-Camille no Hospital Pitié-Salpêtrière. Em 1978 fundou o Serviço de Clínica e Cirurgia da Coluna Vertebral do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, que dirige até hoje. Participações em cursos, congressos e publicações. Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em 1973. Residência Médica no Hospital das Clínicas da FMUSP e no Hospital Pitié-Salpêtrière em Paris. É membro da Associação Francesa de Cirurgia.

Deixe um comentário

Envie um Comentário