Dr. Edmond Barras - Desperdícios na Saúde – Parte I

Dr. Edmond Barras - Desperdícios na Saúde – Parte I

O dicionário da língua portuguesa define desperdício como o ato ou efeito
de desperdiçar, gastar em excesso ou o que não se aproveita, refugo ou resíduo, esbanjamento. Quando se trata dos cuidados da saúde a palavra desperdício tem uma abrangência maior: é o gasto com a saúde passível de ser eliminado sem prejudicar o atendimento. O mais grave que quando se trata de saúde o desperdício não significa simplesmente uma perda econômica. Um exemplo é o excesso de exames complementares que são solicitados para um problema corriqueiro, que um médico consciencioso resolveria com uma consulta e um exame físico minuciosos.

Mas infelizmente em função da pressão da sobrecarga de trabalho do
médico e também devido a certas deficiências na sua formação, o paciente sai do consultório com um pedido de dezenas de exames de laboratório e de
imagem na esperança de voltar com o diagnóstico entregue numa bandeja. Em um primeiro tempo o paciente também sai satisfeito pois a nossa cultura nos faz acreditar que quanto mais exames, melhor. Ato contínuo, uma das dosagens sanguíneas apresenta um resultado superior ao máximo do valor de referência. Sem analisar a real importância clínica desse resultado, o médico pede outra bateria de exames para verificar o porquê da alteração. E assim vai indo, até que se chegue à conclusão que o resultado fora da curva era um “incidentaloma”. Vivemos reclamando dos impostos em cascata; mas não nos damos conta dos exames em cascata. E não se trata apenas de um gasto financeiro excessivo (independentemente de quem paga a conta) mas se trata de um prejuízo psicológico difícil de mensurar. A satisfação inicial do paciente ao fazer uma montanha de exames se transforma em uma espera angustiante para saber o que aquele resultado alterado significa na sua saúde. Para finalmente chegar à
conclusão que apenas se encontrava na extremidade da curva de Gauss, pois os resultados dos exames clínicos representam a média ponderada de uma determinada população. Os americanos chamam isso de “overdiagnosis”, diagnóstico em excesso. Porém o grande perigo é que isso leva “overtreatments”, excesso de tratamentos. Quantos procedimentos
desnecessários são feitos apenas pelo fato de um exame de imagem sugerir
uma alteração sem que haja nenhum significado clínico? Citando especialmente a coluna vertebral, especialidade à qual me dedico há mais de quatro décadas, estudos americanos e brasileiros demonstraram que 60% das cirurgias efetuadas não eram necessárias!!! Quando me formei na década de 1970, sem a tecnologia diagnóstica da qual dispomos hoje, ao se indicar uma cirurgia de coluna o cirurgião se baseava em um interrogatório minucioso, um bom exame físico e neurológico e uma radiografia simples. Em casos mais sérios se fazia uma mielografia, porém tinha que se levar em conta os efeitos adversos do contraste iodado que era injetado na coluna. Felizmente a tecnologia nos trouxe a tomografia computadorizada e a ressonância magnética nuclear o que ajudou
muito na certeza do diagnóstico e teoricamente nos tratamentos dos problemas de coluna. Porém, paradoxalmente, isso trouxe um grande efeito colateral: a visualização de alterações radiológicas sem significado clínico e que levam a indicações de tratamentos invasivos totalmente desnecessários. Com a idade a nossa coluna, principalmente os discos intervertebrais sofrem alterações que são fisiológicas e compatíveis com a faixa etária. Obviamente o radiologista é obrigado a descrevê-las. Basta que isso apareça em um paciente com uma simples crise de lombalgia (o que acontece em 80% da população durante a vida) para que obtenha a indicação de um procedimento cirúrgico para uma dor que passaria em poucas semanas ou mesmo dias com um simples tratamento conservador.

É muito comum no laudo de uma ressonância magnética da coluna lombar
aparecer a menção “injúria dos ligamentos interespinhosos”. Isso significa

simplesmente sobrecarga mecânica e não traduz nenhuma patologia. Entretanto uma rápida pesquisa na internet mostra uma infinidade de processos trabalhistas e indenizatórios simplesmente pela presença da palavra “injúria”!!

É um prato cheio para certos advogados carregarem na tinta e transformar
juízes em inocentes úteis em função de um problema que não existe. Da mesma forma que muitos médicos, se beneficiando da assimetria da informação, usam expressões de laudos radiológicos para impor aos seus pacientes procedimentos desnecessários que no fim se convertem em ganhos significantes, nem tanto em relação aos honorários médicos mas principalmente na comissão recebida dos fornecedores pelo uso de implantes que no Brasil são comercializados com valores muito acima da média mundial. Isso sem falar do terrível impacto psicológico sobre o próprio paciente que ao ler o relatório e consultar o Dr. Google entra em pânico simplesmente ao ler “hemangioma de corpo vertebral”. Tem o som de uma sentença de morte. Mal sabe ele que é um pequeno emaranhado de vasos sanguíneos que já estava presente na sua vértebra há anos e que em mais de 90% dos casos permanecerá até o fim dos seus dias. Até o advento da tomografia computadorizada e da ressonância esses hemangiomas só eram detectados em exames radiológicos quando muito grandes e por ocasião de autópsias.

Infelizmente em se tratando de desperdício na área de cuidados de saúde
o prejuízo financeiro talvez seja o menos importante. O impacto psicológico e a angústia são prejuízos impossíveis de serem indenizados!!

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