Dr. Edmond Barras: RNA mensageiro – Uma relação pessoal meio século depois

Dr. Edmond Barras: RNA mensageiro – Uma relação pessoal meio século depois

Pesquisadora desconhecida, trabalhando nos subsolos da universidade, marginalizada por perseguir um sonho, o de tratar o mundo pelo RNA mensageiro e não pelo DNA, Katalin Kariko é considerada hoje uma sumidade. As suas pesquisas foram um fator determinante para o surgimento de vacinas contra o Covid-19. Nascida em Kiscejszellas, uma pequena cidade da Hungria, de uma família pobre, não a impede de se interessar pela ciência e
particularmente à anatomia. Seus primeiros pacientes não são bonecas, mas as carcaças ensanguentadas de porcos que seu pai, açougueiro, a deixava observar enquanto trabalhava. Apaixonada por ciências, faz seus estudos de bioquímica. Aos 23 anos começa a trabalhar no Centro de Pesquisas Biológicas da Universidade de Szeged. Nesse momento começa a se interessar pelo RNA mensageiro. Mas com a penúria de recursos nos laboratórios húngaros, aos 30 anos ela decide abandonar a terra natal. França, Espanha e Reino Unido se recusam a recebê-la por falta de bolsa. Ela vende o Lada da família e consegue um emprego na Universidade Temple, em Filadélfia e emigra para os EUA, fato difícil na época da cortina de ferro.


O RNA mensageiro, na teoria era perfeito: o nosso corpo, o tempo todo, depende de milhões de proteínas minúsculas para se manter vivo e com boa saúde e para isso usa o mRNA para indicar às células quais proteínas deve
fabricar. Assim, um mRNA específico, teoricamente poderia fornecer às células um “manual” para que fabriquem proteínas terapêuticas. Com isso poderia se combater uma série de doenças, fabricar anticorpos com vacinas contra uma infecção, enzimas para mudar o curso de uma doença rara, ou agentes que possam reparar tecido cardíaco após um infarto ou tecido nervoso lesado por um AVC.

Na década de 1980 a comunidade científica estava convencida que ao modificar o DNA (nosso patrimônio genético) poderia tratar doenças genéticas ou o câncer. Mas Katalin, chegada nos EUA em 1985, é obstinada pelas suas
pesquisas sobre o mRNA, o que lhe causa certos inconvenientes. Nunca teve um cargo de prestígio em uma universidade, nem subvenções governamentais.


Além disso as suas primeiras experiências desencadeiam fortes reações alérgicas. Ela acaba conhecendo o imunologista Drew Weissman, que na época pesquisava uma vacina para o HIV. A pesquisa de ambos consegue resolver o problema da alergia e esta descoberta publicada em 2005, impressiona. Também conseguem resolver o problema da instabilidade do mRNA, resultados publicados em 2015. Como não teve a oportunidade de aplicar as suas experiências com a Universidade da Pensilvania ela assume o cargo de vice- presidente sênior na empresa BioNTech Pharmaceuticals, que acaba de se associar à gigante americana Pfizer para o desenvolvimento de vacina anti-Covid.

As duas vacinas baseadas na estratégia do mRNA existentes no mercado atualmente, fornecem ao organismo instruções genéticas para desencadear a produção de uma proteína idêntica à do coronavírus e provocar uma resposta
imunitária de defesa que protegerá o indivíduo contra o verdadeiro vírus. Poucas pessoas imaginariam que esta bioquímica, localizada nos subsolos da universidade fundaria a base da vacina mRNA contra o Covid-19. Graças aos
seus trabalhos e à sua dedicação, Katalin Kariko e Drew Weissman passam a ser fortes candidatos ao Prêmio Nobel!

Aí, vocês vão se perguntar: o que uma coluna dedicada à assuntos sobre coluna vertebral tem a ver com essa interessante história? Com a coluna nada, mas com o seu autor.

Ainda acadêmico na Faculdade de Medicina da USP, tive a chance de participar com o apoio da FAPESP, de um programa de iniciação à ciência, no Departamento de Bioquímica, na época dirigido pelo saudoso Professor Ricardo
Renzo Brentani. No final da década de 1960, o mRNA era ainda um ilustre desconhecido e o próprio DNA fazia poucos anos que havia sido descrito por Monod e Jacob, na França. O espírito desafiador do Prof. Ricardo Brentani,
apoiado pelo Prof. Isaías Raw, alijado pelo AI 5 e que depois foi diretor do Instituto Butantan, levou a trabalhos pioneiros dos quais tive a honra de participar. Qual não foi a minha surpresa, quando há cerca de um ano comecei
a receber do site ACADEMIA, seguidas relações de que o artigo que escrevera junto com o Prof. Brentani no periódico Biochemical Pharmacoloy, vol 23 de setembro de 1974, na data de hoje atingiu a extraordinária marca de 13.560
menções como referências para artigos mundialmente publicados.

Por se tratar do número 100 da Coluna Vertebral em Foco, achei que a melhor comemoração seria homenagear os gênios que realmente salvam a humanidade, pessoas como Katalin Kariko, Drew Weissman, Isaías Raw e o
saudoso mestre e amigo Ricardo Brentani.

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